índice
Livros
Ficção
Livros não-ficção
Livros infanto-juvenis
Autores
Programa de fomento à tradução

HomeSobre nósNewsletterImpressumLinks


  
Lista de títulos
 
 Image Wilhelm Genazino

Medíocre nostalgia

Carl Hanser Verlag
Munique 2007
ISBN 978-3-446-20818-6
189 páginas


Contato com a editora
Resenha
Excertos
Direitos estrangeiros
 

De início, tudo começa como sempre e exatamente como se espera de Wilhelm Genazino, o mestre do microrrealismo: um homem de meia-idade vagueia solitário pelas ruas em um final de tarde de uma metrópole anônima e medita sobre aquilo que ele, um observador sensível do cotidiano, percebe à beira do caminho. Literalmente en passant, ele formula logo no início do novo romance de Genazino, Medíocre nostalgia, a compreensão, fundamental não apenas para ele, de que “não é simples ser alguém isolado”.

Assim, para escapar de seu isolamento, ele busca refúgio em um barulhento botequim das proximidades, no qual está sendo transmitida a partida do campeonato europeu de futebol entre Alemanha e República Tcheca. Mas mesmo nessa multidão ele continua um corpo estranho – e, conforme tem de constatar para seu horror, um mutilado, ainda por cima. Pois em meio à gritaria dos torcedores e à indignação geral com um gol adversário, sua orelha esquerda, sem que ele o tivesse percebido direito, caiu. Agora ela está ali atirada, sem que ninguém dê por ela, debaixo da mesa.

O assustador nesse “acontecimento inédito” não é a perda da orelha em si, mas a resignação sem queixas ao destino com que o atingido a aceita, e o fato de que os que estão a sua volta não a percebam: “com um defeito tão pequeno não se pode mais chamar a atenção num mundo repleto de estridências”, constata o eu-narrador chamado Dieter Rotmund com o laconismo e a impiedade que revela consigo mesmo e também com os outros.

A invasão do inexplicável em um cotidiano até então organizado de modo pequeno-burguês é narrada do início ao fim sob a perspectiva desse homem que ocupa a função de controller em uma empresa farmacêutica. A orelha perdida sem sangue e sem dor não é a única perda que ele tem a lamentar: logo após, também sua mulher o abandona, junto com a filha, e então é a vez do dedo mínimo do pé direito, que cai, por motivos desconhecidos, durante um banho de piscina. E de tudo aquilo que Rotmund, que “não quer mais entrar em contato com a complexidade da vida”, recém se propusera, “organizar meu cotidiano de tal maneira que eu encontre nele apenas relações simples com pessoas simples”.

Esse propósito fracassa de modo lastimável para seu desgosto e para deleite do leitor, que se torna testemunha das tentativas de Rotmund, mais ou menos bem sucedidas, mas em compensação tanto mais hilárias e ricas em conhecimentos, de conservar o pretenso estado normal e arranjar-se em sua nova situação o melhor que puder.

O que há de peculiar no modo de narrar de Genazino, condensado e com seu registro preciso da realidade, é o fato de ele sempre conseguir arrancar as centelhas de seu chiste justamente do desolado, e captar a atitude misantrópica fundamental de seu protagonista através de um humor subjacente, que, sem jamais denunciar a personagem, é capaz de desvelar o cômico precisamente no fracasso. Ele faz de Rotmund muito antes uma encarnação verossímil da difícil arte de aceitar a vida como ela é e de não ceder ao desespero, que leva esse “nômade do amor, cansado da vida” a cair no choro (e não sem silenciosa satisfação) repetidas vezes.

A situação em que Rotmund se encontra desde a queda de sua orelha e o fracasso de seu casamento por demais medíocre é marcada pelo movimento oposto de ascensão profissional (inesperadamente e sem qualquer entusiasmo ele se torna diretor financeiro) e declínio privado. Esse agravamento se reflete de modo simbólico na experiência de dissociação, tanto corporal quanto psíquica, desse herói tragicômico sempre a um fio de uma depressão severa.

É assim que Rotmund percebe a si mesmo como “ruína amorosa” e, contudo, sabe contrapor ao vazio de sua vida apenas a renovada busca do amor, mesmo quando sabe das inevitáveis desilusões: “Ao mesmo tempo, sei que vou definhar se não puder me enraizar em outra mulher”. E assim, um tanto a contragosto, ele se envolve sexualmente, numa relação sem grandes exigências, com Sonja, a inquilina anterior de seu novo apartamento. Significativamente, ela também é uma mutilada no corpo e na alma: ela possui somente um seio e ganha a vida no papel de estelionatária. Também no ambiente costumeiro de Rotmund multiplicam-se os sinais de que em geral algo não está certo – o número de lesionados aumenta em toda parte (conforme notícias de jornal, uma criança perdeu um polegar) –, na sua percepção, apenas prenúncios de uma catástrofe futura não percebida por ninguém.

De modo paradoxal, é justamente ao dar caráter absoluto às percepções distorcidas de Rotmund que Genazino consegue traçar o retrato, exagerado de forma consciente e contudo singularmente plausível, de um presente monstruoso. No seu desespero silencioso e com o olhar melancólico do espectador, Rotmund sempre volta a formular, em seu fluxo de pensamentos que não quer ter fim, tiradas espirituosas de clareza aforística, aparentemente de passagem e sem que ele próprio o perceba: “Como é estranha uma orelha! É necessário perder uma, primeiro, para notar como era extraordinária a vida com duas”.

E como possivelmente seremos poupados dessa experiência, sabemos valorizar tanto mais as compreensões existenciais de Rotmund e os prazeres estéticos proporcionados pela leitura dessas compreensões, extremamente engraçadas justo em sua desolação.

Anne-Bitt Gerecke
Julho de 2007
[Traduzido por Renato Zwick]



  
Versão para impressão
Topo da páginaLista de títulos