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 Image Sherko Fatah

O navio escuro

Jung und Jung
Salzburg / Wien 2008
ISBN 978-3-902497-36-9
440 páginas


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Resenha
Excertos
 

Num barraco escuro, conhecido como “casa do sangue”, os homens esquartejavam vira-latas abatidos a tiros a fim de comê-los ou de usá-los como explosivos, “Kerim e vários outros meninos (...) tinham sido mandados para lá levando os cadáveres dos cães. Acocorados na penumbra que entrava pelas janelas, os homens abriam os corpos dos animais com facas e retiravam os intestinos, tomando cuidado para não tirar demais para que depois não se visse mais nada”.

Brutalidade, terror, escuridão são os temas predominantes do romance O navio escuro de Sherko Fatah, que chegou a ser finalista do Prêmio da Feira do Livro de Leipzig e do Grande Prêmio do Livro Alemão em 2008. O papel principal cabe à escuridão, ela é perceptível praticamente em cada palavra. Fatah conta a viagem do jovem curdo Kerim, do Norte do Iraque. Ela o conduz do seio de sua família até os guerreiros de Deus, numa ilha deserta, e em seguida para Berlim. Contrariamente às suas esperanças, a Alemanha não é um paraíso seguro, pois também envolve o refugiado em trevas, até o seu passado negro vir ao seu encontro. Pois Kerim é um guerreiro que assassinou brutalmente e acompanhou jovens suicidas em seu último caminho. É um passado do qual não há mais como escapar.

Apesar deste breu que envolve o romance, a história de Kerim não parece sombria. Isso se deve à linguagem de Fatah, clara, reta, simples e, mesmo assim, recheada de magia. O autor, nascido em 1964 em Berlim Oriental, filho de um pai curdo do Iraque e de uma mãe alemã, é dono de uma narrativa distanciada e calma. Não julga, não explica, não interpreta. Deixa tudo para o leitor. Sábia decisão.

A força de suas palavras desabrocha já no prólogo. O início é uma cena de uma beleza tão terrível quanto fascinante. Um dia de verão nas montanhas do Norte do Iraque, velhas aldeãs de vestidos coloridos coletam ervas, conversando, enquanto o pequeno Kerim observa tudo atentamente. De repente desce um helicóptero militar barulhento, as mulheres sobem nele e acenam para o garoto, que adoraria voar também. . “E realmente a máquina voltou, o barulho aumentou até ele tapar os ouvidos. A cabeça virada para trás, ele viu as mulheres. Foi quando caíram, uma depois da outra ia despencando da escotilha, de braços abertos, brilhando na luz, e o vento, como se quisesse detê-las, puxava suas vestes”.

Fatah é um mestre das imagens fortes. Mas o leitor acaba não sabendo o que exatamente se passa na cena, muito menos por que. O autor fica devendo essa explicação, assim como várias outras, para outros acontecimentos inauditos desse romance de aventuras. Apenas fica evidente que o país está em guerra. Nos anos 80, sob o regime de terror de Saddam Hussein, ações arbitrárias de homicídios não eram nenhuma raridade. Kerim cresceu com a guerra duradoura em seu país. Ela acontece ora numa região, ora em outra, às vezes, na porta da casa. O pai de Kerim, um cozinheiro alevita que, como a maioria da população, fica calado o tempo todo e não quer chamar a atenção, acaba por não agüentar mais. Quando um agente secreto, cliente de seu pequeno restaurante à beira de uma estrada para o Sul, se gaba de ter jogado futebol com a cabeça de um espião, o pai de Kerim lhe joga os pratos na mesa. São tempos duros, em que não vale a pena irritar agentes secretos. Poucos minutos depois o pai está morto.

É quando começa a odisséia de Kerim. O garoto gordo que ajudava o pai aqui e acolá é obrigado assumir responsabilidades. Mas o papel de patriarca da família é grande demais para ele, os outros membros da família não o levam a sério. A situação não perdura muito tempo, pois Kerim é seqüestrado por guerreiros de Deus – não porque estivessem interessados nele, apenas querem o seu veículo, Mas o que fazer com aquele gordo lerdo e medroso? Pela primeira vez Kerim se defronta com a morte. Quando o perguntam pelas suas habilidades, ele responde: “Sei fazer tudo, porque sei aprender tudo”. Esta resposta lhe salva a vida.

A partir desse momento, ele divide a vida ascética e espartana dos guerreiros de Deus e se sente incluído pela primeira vez na vida. Admira o líder, cujas ordens e opiniões aceita incondicionalmente. O adolescente obeso se torna um jovem magro e rígido. Kerim só tem medo de um guerreiro de Deus, mas de maneira geral gosta da comunidade de homens que não são cruéis e fanáticas máquinas de matar, e sim um grupo heterogêneo de indivíduos talentosos. Esse é o cerne do livro. Não se trata do Islã, e sim do extremismo em suas mais diversas facetas. Como alguém pode se tornar um guerreiro de Deus radical? É o que Fatah tenta responder a partir do exemplo de Kerim.

Antes de ser a sua vez de virar mártir como terrorista-suicida, Kerim descobre que não conseguirá cumprir a auto-imolação destruidora em nome da fé e foge para a Alemanha com dinheiro roubado.

A fuga começa com uma longa viagem em completa escuridão. O guerreiro se transforma em passageiro clandestino que morre de medo e precisa se virar no bojo do navio. Durante a viagem – que dá o nome ao livro – a tripulação o descobre e o larga numa ilha deserta junto com outro refugiado. A este episódio de Robinson Crusoé se segue o longo caminho para a Alemanha, onde continua a longa peregrinação pelos órgãos responsáveis pela imigração.

Em Berlim a história de Kerim experimenta uma reviravolta surpreendente. Embora tenha fugido dos guerreiros de Deus, a religião e a fé conseguem alcançá-lo. Ele sente falta do pertencimento à sua cultura e a oração o preenche pela primeira vez com uma calma profunda e forca. O antigo guerreiro se transforma em fundamentalista religioso. A convicção interior de Kerim nasce naturalmente, sem nenhum arroubo moral, sem grandes gestos, tornando-se, assim, muito mais crível. Entre estranhos, dos quais ele não faz parte nem quer fazer parte, ele se recolhe cada vez mais. Essa reclusão o torna atraente aos olhos dos outros. Um ser humano até então mediano ganha uma aura exótica. Kerim nunca foi especialmente bonito, charmoso ou inteligente, embora não fosse burro. Cozinha razoavelmente bem, mas não tem muitas outras habilidades. Mas de repente ele desenvolve um magnetismo sombrio que atrai uma jovem estudante e um líder de bando árabe radical. Este último decidirá o destino de Kerim.

O navio escuro tem cinco partes. Nos primeiros dois, Fatah narra de forma cronológica e retilínea, enquanto o resto é recheado de flashbacks e trocas de perspectivas. Assim se forma lentamente a personalidade de Kerim, como em um quebra-cabeças. É a imagem de um homem cujo estranhamento assustador parece ter sido gerado num mundo paralelo. O grande mérito da história é que as cenas observadas detalhadamente sejam tão realistas. Só assim, Das dunkle Schiff se torna um romance tão contrito, tão político.

Christine Fehenberger
Setembro de 2008
[Tradução de Kristina Michahelles]



  
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