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 Image Hans Pleschinski

Ludwigshöhe

Verlag C. H. Beck
Munich 2008
ISBN 978-3-406-57689-8
579 páginas


 Com seu romance Ludwigshöhe, Hans Pleschinski – duas vezes vencedor do Prêmio Tukan da cidade de Munique – apresenta uma obra incrivelmente densa, multívoca e cheia de referências no âmbito da literatura alemã contemporânea.

Como um enclave no interior da sociedade bávara, a Casa Húngara se ergue junto ao lago Starnberger, guardando um mistério sombrio: ela serve de abrigo, mas não para moribundos que necessitam de ajuda profissional em seus últimos meses de vida, e sim para pessoas que diante da tragédia cotidiana de sua existência se mostram fartas da vida. Elas são chamadas de “finalistas”, e os irmãos Ulrich, Clarissa e Monika Berg lhes oferecem, ainda que involuntariamente, um refúgio, no qual podem fazer a opção pelo suicídio em paz e protegidos do mundo exterior. A herança do tio, uma fortuna nem de longe desprezível, estava vinculada a uma condição: oferecer o apoio necessário aos cansados da vida. Apenas se os três irmãos tornarem esse projeto real no decorrer de um ano, é que poderão receber a herança.

Os irmãos aceitam o desafio com aversão e se entregam a seu destino, sem euforia, mas também sem grandes cogitações de ordem moral. Passam a distribuir cartões de visita discretamente, e logo em seguida os primeiros “clientes” se apresentam. Que o projeto envolveria dificuldades imprevistas, já era fácil de imaginar desde o princípio.

De qualquer modo, dois dos finalistas encaminham a morte planejada, com rapidez e sem grandes dúvidas. Os outros, porém, mostram uma hesitação cada vez maior. E assim acontece o que tinha de acontecer, os habitantes do lugar reencontram a vontade de viver; entre pessoas de propensões semelhantes é bem mais fácil achar alguém que nos compreenda. O desejo de se suicidar se transforma em festa, todos celebram seus últimos dias, sanduíches e empadinhas são recebidas pomposamente, pois inebriados de espumante a barca de Caronte parece bem mais amena. A questão toda envolve apenas um problema: o espetáculo começa a agradar aos habitantes. E quem gostaria de morrer quando o mundo se torna tão bonito e agradável?

Os Berg são obrigados a intervir com energia, pois um retorno dos hóspedes da Casa Húngara ao mundo é impossível, por causa da atividade ilegal: “Meus caros hóspedes!, aos quais gostaríamos de nos dirigir, chamando-os de finalistas decididos. A passagem de alguns... por aqui... contra as expectativas parece se estender por vários dias... (...) De resto, queremos lembrar mais uma vez de nossas salas no porão, nas quais, seguindo antigos métodos, sem estardalhaço e completamente isolados, vocês podem botar seu “basta” inadiável em ação.”

Também o aumento da diária para 40 euros não acelera a chegada da morte. Os irmãos, que desde o princípio não sabiam muito bem como lidar com a situação, passam a fazer cada vez mais pressão, aumentam a diária para 50 euros e tentam com todos os meios convencer os finalistas a executar o buscado suicídio: “Protejam a vocês e à sociedade da doença, da velhice, da pobreza e das preocupações.” Mas quanto mais os Berg pressionam os finalistas, tanto mais estes recuperam sua vontade de sobreviver.

Os “finalistas” de Pleschinski passam todos por uma evolução semelhante. Eles fracassaram diante das normas e noções valorativas burguesas e perderam a capacidade de determinar as coisas acerca de sua própria vida. Disso resulta, em todos eles, o desejo de, através da morte, botar um fim na vida ditada de fora, e com isso agir pela última vez como indivíduo autônomo. Isso vale tanto para a professora Ute Wimpf, que não consegue mais lidar com a juventude degenerada, quanto para a síria Aizia, que está fugindo de seus irmãos porque ama um cristão. Nas alturas de Ludwigshöhe, isoladas da sociedade e da pressão que é exercida de fora sobre elas, as personagens logram reencontrar sua individualidade.

O romance de Pleschinski, publicado em 2008 e contemplado com o prêmio Nicolas Born (Nicolas-Born-Preis), investiga em que medida o suicídio é um ato da liberdade individual e como ele é tematizado e avaliado na sociedade. O autor apresenta o suicídio como negação absoluta da vida e da realidade. Quando se compreende a morte voluntária como ato transcendental de uma vida autodeterminada, Pleschinski caricaturiza esse ponto de vista ao introduzir os irmãos Berg como uma instância mais uma vez exterior, que insiste em levar os suicidas a enfim transformar sua morte voluntária em fato.

Mas também o dilema moral dos Berg se torna nítido em diversas cenas. Quando um propósito de suicídio é compreensível, quando ele é suficientemente fundamentado? Existe uma resposta para essa questão? Pleschinski, que se ocupou extensivamente do discurso social e literário acerca do suicídio, disse acerca do assunto em uma entrevista: “De um modo geral, existe só um diagnóstico definitivo em Ludwigshöhe: quase todos os suicídios são prematuros.”

A crítica de Pleschinski à sociedade fica clara no exemplo dos “finalistas” e seu retorno inesperado à vida: para os personagens, uma vida autônoma e social parece existir apenas no enclave da Casa Húngara. O desejo de morte ao mesmo tempo é, assim, uma recusa consciente a uma sociedade perversa, e Ludwigshöhe é um romance que pode ser lido como uma representação grotesca das noções questionáveis de moral e de valor, que na obra são conduzidas ad absurdum de maneira rigorosa e sistemática. Isso se revela de modo especialmente drástico na personagem do pequeno Benny, que busca refúgio na Casa Húngara por medo de uma nota ruim no boletim, escolar e de causar preocupações a sua avó por causa disso.

Pleschinski conta sua história sobre a “eutanásia” mantendo a maior distância possível, com muito humor e uma língua ferina e amarga. Os personagens são desenhados de forma grotesca e definidos apenas pelo papel que assumem no microcosmos da Casa Húngara – o discurso do suicídio encenado como teatrum mundi junto ao largo Starnberger.

“Somos o que fazemos e o que contamos”, é o que Pleschinski faz um de seus personagens dizer, resumindo, e de quebra eleva seu romance a uma peça de literatura metaficcional. Essa autorreflexão dos personagens é – face à falta de capacidade de refletir diante de sua própria vida – surpreendente. Não é o que acontece com o desenlace do romance: depois de as figuras marcharem em uma espécie de procissão sacra para as trevas do porão, a fim de botar seu “basta” em prática, acabam sobrevivendo ao final. Pleschinski não oferece, aliás conscientemente, uma explicação para o fato de o suicídio coletivo ter sido evitado.

“Tenho dificuldades de me separar de meus personagens, e também não gosto nem um pouco de matá-los”, é o que diz a resposta lacônica de Pleschinski em uma entrevista. Para explicar o retorno de suas estúrdias figuras à vida, porém, isso está longe de bastar. Muito antes pode-se dizer que elas precisam sobreviver, porque Ludwigshöhe é uma ode amável à vida, a seus abismos, a suas paixões e a sua tragédia, que, só por existirem, ajudam a fazer da vida uma vida realizada.

Jennifer Endro
Outubro de 2009
[Tradução de Marcelo Backes]


 

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