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 Image Ulrich Hub
Jörg Mühle (Illustrator)

Na arca às oito

Patmos Verlag / Sauerländer
Düsseldorf 2007
ISBN 978-3-7941-6109-6
63 páginas
A partir de 6 anos


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Como sempre, os pingüins estão entediados e começam a brigar. Dessa vez, a briga é por causa de Deus, que supostamente não vê com bons olhos o fato de o pequeno pingüim ter "capturado" uma borboleta. Mas, afinal, quem é Deus? E como se pode ter certeza de que Ele, sendo invisível, exista de verdade? E em que será que Ele estava pensando na hora de criar os pingüins? Os pingüins não têm a mesma opinião sobre esse assunto, mas de uma coisa eles têm certeza: que o pequeno pingüim não vai para o céu por ter matado a borboleta. Assim, quando o pequeno pingüim vai embora magoado, acontece uma coisa imprevisível: uma pomba rechonchuda traz um recado de Deus, que está farto das eternas brigas dos homens e dos animais. Antes do grande dilúvio, no qual o mundo deverá naufragar, Ele quer salvar dois exemplares de cada espécie animal. E justamente os dois pingüins foram os escolhidos e recebem da pomba os cartões de embarque da Arca de Noé.

A alegria inicial dos dois pingüins logo se transforma em preocupação pelo pequeno amigo. Para não deixá-lo para trás, tascam-lhe um soco, colocam-no inconsciente numa mala e embarcam com ele de contrabando na arca. Em meio a uma confusão generalizada a bordo, no início, os pingüins conseguem esconder da desconfiada pomba o passageiro clandestino. Somente quando ela ouve uma voz vindo da mala, afirmando ser a voz de Deus, é que o contrabando se revela. Logo em seguida, porém, muita coisa acontece: a chuva pára, a arca ancora e os animais podem deixá-la, aos pares. Quando a pomba percebe que justamente ela esqueceu de levar um par, os pingüins têm uma brilhante idéia para ajudá-la: a pomba deve deixar a arca acompanhada do pingüim disfarçado de noivo, sem levantar suspeitas de Noé. O casal tão desigual acaba descobrindo afinidades, e o que de início era forçado, transforma-se depois num verdadeiro caso de amor.

Na história repleta de humor de Ulrich Hub, os teimosos animais, por se manterem unidos, conseguem superar todos os problemas, apesar das inúmeras desavenças. Justamente nas diferenças de opiniões, mostra-se de maneira interessante e que salta aos olhos, a semelhança dos pingüins com Deus, porque com Ele também "é difícil de discutir", e também "é difícil convencê-lo do contrário, quando mete uma idéia na cabeça".

Assim, nenhum dos personagens está livre de fraquezas e de cometer erros, e o próprio Deus é apresentado de maneira ambivalente. Se, no início, o pequeno pingüim teme um Deus severo e vingativo, mais tarde, quando conversa com a pomba estressada, ele mesmo apresenta uma imagem bem diferente Dele. Sem ter de pensar muito, ele consola a pomba prometendo a compreensão de Deus, de quem garante ser possível sentir raiva e ser Ele também alguém capaz de cometer erros. A representação que faz de Deus é tão convincente, que até o outro pingüim, por um momento, acredita estar diante da presença de Deus.

Somente o horror do dilúvio é que permanece incompreensível para os pingüins até o final. Nem mesmo a atmosfera de confraternização e o arco-íris que Deus manda depois do salvamento convencem totalmente os pingüins da necessidade de um castigo tão rigoroso. Assim, permanecem impedidos de conhecer os últimos segredos de Deus, e os animais novamente vão deixar a essência de Deus por conta de sua presunção.

Ao encorajar as crianças a formularem questões a respeito de Deus, sem, no entanto, oferecer-lhes soluções precipitadas, Ulrich Hub abre espaço para a reflexão, ao mesmo tempo que revela que, para certas perguntas, nem sempre há respostas inequívocas. Os animais ingênuos e desrespeitosos, perversos e conscientes de culpa, não são personagens ideais com que as crianças se identificam: "Talvez Deus nem exista e só tenha chovido muito tempo sem parar", é o que supõe, por exemplo, o pequeno pingüim, mantendo-se desconfiado até o final.

O humor seco da história é maravilhosamente complementado pelas detalhadas e divertidas ilustrações de Mühle, que às vezes destacam especialmente o mau comportamento das aves. Com a mesma franqueza que Hub conta sua história são mostrados erros e fraquezas, e contempladas as emoções.

Assim, se Na arca às oito mostra, por um lado, como é importante refletir a respeito de Deus, por outro, adverte para que não se perca de vista a necessária convivência humana. E a linda relação de amor entre o pingüim e a pomba, no final romântico da história, mostra que essa convivência pode ser assumida abertamente, mesmo quando se apresenta nas formas mais incomuns.

Martina Schlögl
Fevereiro 2007
[Traduzido por Christine Röhrig]



  
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