índice
Livros
Ficção
Livros não-ficção
Livros infanto-juvenis
Autores
Programa de fomento à tradução

HomeSobre nósNewsletterImpressumLinks


  
Lista de títulos
 
 Image Rüdiger Safranski

Romantismo
Um caso alemão


Carl Hanser Verlag
Munique 2007
ISBN 978-3-446-20944-2
416 páginas


Contato com a editora
Resenha
Excertos
Direitos estrangeiros
 

O lançamento pela editora Hanser, no outono passado, de um livro de não-ficção com o título de Romantismo. Um caso alemão despertou grande interesse em toda parte. Não por nada, mas porque o autor chama-se Rüdiger Safranski e faz neste livro o que faz como ninguém: contar uma história. Aqui, ele conta a história de um fenômeno – o Romantismo – que julgávamos conhecer desde sempre, mas que agora vem se mostrar a nós com feições renovadas e surpreendentes.

O livro de 400 páginas divide-se em duas seções, “O Romantismo” e “O Romântico”. Na primeira parte, Safranski dedica-se à época entre o fim do século XVIII e o começo do XIX, ou seja, à época que costumeiramente leva o nome de Romantismo. São três os fatores que Safranski, referindo-os à Alemanha, aponta como origem e antecipação desse movimento que revolucionou a cultura: a noção herderiana de história dinâmica; a teoria schilleriana da arte como jogo; e, é claro, a Revolução Francesa. Safranski não se limita a apresentar os escritores e pensadores mais importantes do período, ele quer mais: quer captar o espírito que disparou essa explosão de criatividade, essa profusão de teorias abstratas, ensaios filosóficos, romances e poemas.

O distanciamento em relação ao Iluminismo, a exigência de autonomia da arte, a inclinação pelo fantástico, a nostalgia do mistério, a crença no eu criador – Safranski sabe dar vida a tudo isso junto ao espírito do leitor, apresentando as questões mais complexas de modo plástico e cativante. Assim, sabe evocar de modo transparente e esclarecedor, mesmo para o leitor mais familiarizado com o assunto, a poesia universal progressiva de Schlegel, a filosofia do eu em Fichte, a ironia romântica nas obras de Tieck, o idealismo mágico de Novalis, a teoria da religião em Schleiermacher e os famosos encontros na casa dos Schlegel em Jena. Safranski expõe igualmente as transformações e as rupturas do período – por exemplo, ao expor com minúcia o modo como o horizonte intelectual vai aos poucos se estreitando e como, a partir dos românticos de Heidelberg mais próximos a Brentano, vai se incrementando o interesse pelo passado, pelas lendas e contos populares, até que o impulso universalista do início ceda lugar ao patriotismo.

Na segunda seção, Safranski examina “o Romântico como atitude espiritual” que se pode distinguir da época romântica até os dias de hoje. Ele persegue essa atitude por mais de um século, que se manifesta em Marx e Heine, nas óperas de Wagner e na noção do dionisíaco em Nietzsche. Depois de passar pelo George-Kreis [círculo de escritores e artistas em torno a Stefan George], Hermann Hesse e Thomas Mann, Safranski persegue a trilha até chegar ao nacional-socialismo e, na conclusão do livro, ao movimento de 1968. É central, nessa segunda seção do livro, o confronto com a tese polêmica – defendida mais recentemente pelos historiadores Isaiah Berlin e Eric Voegelin – segundo a qual o romantismo alemão teria favorecido ou mesmo determinado a catástrofe do Holocausto.

A segunda seção torna definitivamente claro que não estamos diante de uma exposição histórica no sentido clássico. Equivoca-se forçosamente, portanto, quem pedir mais datas, nomes e fatos a este “grande história do Romantismo”. Falta aqui muito do que seria imperativo numa exposição exaustiva da época romântica. Como fenômeno explicitamente europeu, o Romantismo não pode ser pensado sem os influxos de outras culturas; Safranski, porém, limita-se apenas a estudar o caso alemão. Do mesmo modo, fica de fora a relação entre as várias artes, tão central para o Romantismo; a pintura simplesmente não comparece e a música, tão-somente na figura de Richard Wagner. Também as relações estreitas entre o Romantismo e as ciências naturais não recebem atenção, o mesmo valendo para a auto-imagem das participantes femininas do movimento romântico e dos impulsos artísticos suscitados por elas.

Mas criticar Safranski por isso seria ignorar a intenção de seu livro. Não se trata, para o autor, de acrescentar mais um texto de história da literatura da época. Se um especialista tão destacado quanto Safranski se volta para o tema, ele o faz para renovar um debate vetusto. E isso ele o faz em dois aspectos.

Em primeiro lugar, ao tornar o fenômeno do Romantismo acessível ao leitor não exclusivamente pela via intelectual. Por meio da alternância segura de detalhes biográficos, histórias cativantes e explicações esclarecedoras de conceitos filosóficos e estéticos, ele torna o acervo de idéias românticas acessível à nossa experiência. Mais ainda: ele torna inteligível a atração que o Romantismo – essa "continuação da religião por meios estéticos" – exerce até hoje.

Em segundo lugar, Safranski investiga a relação entre política e Romantismo. Com precisão e nitidez, ele polemiza com a tese de que o Romantismo teria constituído a pré-história espiritual da catástrofe do Terceiro Reich, praticamente tornando possível este último. Ele mostra em que medida a atitude espiritual romântica de fato favoreceu o nacional-socialismo e de que modo suas idéias e seus ideais foram deturpados na imagem de um "romantismo de aço". Mas Safranski não se detém nesse momento histórico e nota – num passo sem dúvida original – de que forma elementos românticos exerceram influência também nos movimentos de 1968, inclusive em suas derivações terroristas dos anos 70.

A conclusão em que desemboca essa reconstrução da atitude romântica é tão simples quanto convincente: o Romantismo é condição necessária para uma vida plena, ao mesmo tempo que a política deveria ficar tão longe quanto possível. Com sua investigação tão inspirada quanto inspiradora, Safranski certamente produziu um marco na discussão do Romantismo como uma das épocas mais produtivas, em termos teóricos e artísticos, de toda a história da cultura alemã, e é de desejar que seu livro encontre muitos leitores curiosos e admirativos.

Anne Nordmann
Abril de 2008
[Traduzido por Samuel Titan]



  
Versão para impressão
Topo da páginaLista de títulos